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Tudo justifica a vontade de escrever.

Tudo justifica a vontade de escrever.

Hoje, Viajei para o Japão

Acordei, preparei uma chávena de chá e sentei-me na poltrona que se encontra de frente para a janela da varanda do meu quarto. Ao longe, via a Serra da Freira coberta por uma leve neblina característica de manhãs frias de inverno. Ainda com o pijama do Homer Simpson a beber cerveja, cobri-me com a manta de lã que me ofereceram pelo Natal com desenhos do Batman impressos num dos lados. Olhei a serra enquanto bebia um chá de canela e gengibre, aconchegado pela manta, dando uma sensação de conforto relaxante. Há coisas que só sentindo podem ser apreciadas devidamente e que as palavras podem roubar a magia. Deviam de experimentar um dia destes.

Peguei no smartphone e liguei os auscultadores. Abri a aplicação do Spotify e coloquei na reprodução uma playlist que me surgiu por um erro de escrita, Japonese Lo-Fi Chill. É a primeira vez que ouço este género de música e confesso que fiquei fã. Uma mistura de música japonesa com os beats do hip-hop, mas num contexto mais calmo e tranquilo. Muito propicio para momentos de relaxamento e de trabalho.

Encostei-me na poltrona e dei mais um gole no chá ainda quente. O olhar voltou para a serra que ainda se apresentava com a mesma neblina matinal. Aos poucos, fechei os olhos, mas não adormeci. É como se começasse um processo de meditação involuntária, sem qualquer objetivo, permitindo que a minha mente divagasse. E com os olhos fechados, na minha mente ainda pairava aquelas imagens da serra. Como a mente humana é um mistério, memórias de momentos passados na serra começaram a surgir, sem ordem cronológica. Talvez por grau de importância ou de felicidade, não sei. Cada momento era, sem dúvida, especial. Mais simples, mais calmos, com amigos, com família, sozinho, todos eles tinham ficado na minha memória e, agora, regressavam para me fazer viajar.

Ainda em momento meditativo, ou em modo de viagem, começavam a surgir outras imagens na minha mente. E de uma Serra da Freita coberta de neblina e memórias, dou um enorme salto para um monte do outro lado do mundo, o Monte Fuji, no Japão. Deixei de me recordar de um lugar onde estive, para me recordar de lugares onde quero ir. Tudo isto porque olhava para uma serra linda, enquanto ouvia música tradicional japonesa.

Nunca estive no Japão, mas na minha mente, aquelas imagens tão características de um país que fui absorvendo de livros e de filmes, ganhavam contornos de realidade. Monte, lagos, templos, cidade, enfim, aparecem na minha cabeça quase contando a história de uma viagem que nunca existiu. E assim se formava o Monte Fuji na minha mente com o seu cume coberto de neve e pequenas nuvens que traçavam uma fronteira com o resto do monte.

Há medida que aquela visão se afastava e ganhava amplitude, surgia um lago de águas calmas, onde pescadores navegavam e lançavam as suas canas. Nas margens surgia uma mistura de verde e rosa: verde de alguns bonsais que ali estavam e o rosa das amendoeiras em flor. Equilíbrio é a palavra que encontro para descrever o que via. No meio disso tudo, ergueu-se um templo taoista de tons terrosos, com o seu telhado em forma de chapéu e todo feito em madeira, apelando a um minimalismo que se compunha com natureza que o rodeava.

Os prédios começavam a surgir. E lá estava eu na cidade. Nos passeios as pessoas circulavam sorrindo, barafustando, descontraídas e atarefadas. As lojas estavam abertas e sempre bem decoradas. As esplanadas estavam cheias de pessoas e ao fundo via-se uma ponte onde circulava o comboio de alta velocidade.

Respirei fundo e voltei a abrir os olhos. A serra já não apresentava neblina, mas o céu continuava cinzento e o ambiente frio. Na janela, surgiam as primeiras gotas da chuva. O chá estava agora morno, mas ainda agradável. Encostei a cabeça para trás e esbocei um sorriso. Acabei de viajar sem sair de casa.